Matéria 01
Língua Portuguesa
O que o edital pede nesta matéria
- 1Leitura e interpretação de diversos tipos de textos (literários e não literários).
- 2Sinônimos e antônimos.
- 3Sentido próprio e figurado das palavras.
- 4Pontuação.
- 5Classes de palavras: substantivo, adjetivo, numeral, artigo, pronome, verbo, advérbio, preposição e conjunção – emprego e sentido que imprimem às relações que estabelecem.
- 6Concordância verbal e nominal.
- 7Regência verbal e nominal.
- 8Colocação pronominal.
- 9Crase.
Língua Portuguesa · Capítulo 1
Leitura e interpretação de textosSinônimos e antônimos no contextoSentido próprio e sentido figurado
Itens do edital:
- 1. Leitura e interpretação de diversos tipos de textos (literários e não literários).
- 2. Sinônimos e antônimos.
- 3. Sentido próprio e figurado das palavras.
1.1 Pré-teste
Responda antes de ler a teoria. O gabarito está no fim do capítulo.
P1inédita
Leia o texto autoral: “A biblioteca da escola passou a abrir no recreio. Antes, os livros esperavam o fim da aula; agora, disputam a atenção das crianças com a bola e o lanche. A bibliotecária comemora: a disputa já trouxe novos leitores.” A ideia central do texto é que a mudança de horário
- A)reduziu o interesse das crianças pelas atividades esportivas.
- B)transformou o recreio em um período obrigatório de leitura.
- C)ampliou as oportunidades de aproximação com os livros.
- D)transferiu as aulas regulares para o espaço da biblioteca.
- E)resolveu a falta de alimentos durante o intervalo escolar.
P2inédita
Em “A equipe apresentou uma solução viável para reorganizar a sala”, a palavra “viável” pode ser substituída, sem mudança relevante de sentido, por
- A)executável.
- B)provisória.
- C)custosa.
- D)imprevista.
- E)dispensável.
P3inédita
Há emprego de palavra em sentido figurado em:
- A)A servidora abriu a janela antes da reunião.
- B)O estudante guardou o livro na mochila azul.
- C)A professora colocou o vaso sobre a mesa.
- D)O zelador fechou o portão depois da aula.
- E)A notícia acendeu a esperança da comunidade.
1.2 O que cai
- 1. Leitura e interpretação de diversos tipos de textos (literários e não literários): 52 questões da Vunesp, 2021–2026
- 2. Sinônimos e antônimos: nenhuma questão da Vunesp vinculada a este item
- 3. Sentido próprio e figurado das palavras: 2 questões da Vunesp, 2021–2025
1.3 Teoria
A interpretação depende das relações entre as partes do texto. O contexto também determina o valor dos sinônimos e das expressões figuradas.
1.3.1 Leitura e interpretação de textos
Interpretar é construir uma compreensão sustentada pelas palavras do texto e pelas relações entre elas.
Uma alternativa pode parecer sensata e ainda assim estar errada porque acrescenta uma informação ausente. Em uma notícia sobre a ampliação da biblioteca escolar, por exemplo, a ampliação não prova que todos os alunos passaram a ler mais. A primeira informação é um fato narrado; a segunda exigiria evidência sobre o comportamento dos estudantes.
O tema é o assunto geral. A ideia principal é aquilo que o texto afirma sobre esse assunto. Em um comunicado sobre o empréstimo de livros, o tema pode ser a biblioteca; a ideia principal pode ser a alteração do procedimento de retirada. A finalidade é o objetivo comunicativo: informar uma mudança, orientar uma ação, defender uma proposta ou produzir determinado efeito estético. Tema, ideia principal e finalidade respondem a perguntas diferentes.
O título fornece uma pista de leitura, mas não substitui o desenvolvimento. Um título interrogativo pode introduzir um debate sem apresentar a posição final do autor. Um título figurado pode condensar uma avaliação que só fica clara após a leitura. Já o subtítulo pode delimitar o alcance do assunto, apresentando local, circunstância ou perspectiva. Nenhum desses elementos autoriza a criação de informações que o corpo do texto não sustenta.
Informação explícita é a que está declarada, ainda que a alternativa use outras palavras. Se o aviso diz a biblioteca permanecerá fechada durante a organização do acervo, a afirmação de que o fechamento é temporário encontra apoio no próprio aviso. Inferência é uma conclusão obtida pela combinação de pistas. Ela precisa ser necessária ou suficientemente sustentada, e não apenas possível. O fechamento, sozinho, não permite concluir que houve falta de servidores ou perda de livros.
| Operação | Apoio necessário | Desvio típico |
|---|---|---|
| Localizar informação | Declaração do texto | Acrescentar uma causa |
| Inferir | Pistas articuladas | Tratar hipótese como certeza |
| Identificar finalidade | Gênero e conteúdo | Confundir assunto e objetivo |
| Reconhecer opinião | Avaliação ou julgamento | Atribuir ao autor fala alheia |
Pressuposto é uma informação apresentada como já admitida pela formulação. Em a escola voltou a oferecer oficinas, o verbo voltou pressupõe uma oferta anterior interrompida. O enunciado afirma a retomada e traz a existência da oferta passada como pano de fundo. Subentendido depende mais da situação e da interpretação contextual. Em a sala está muito barulhenta, pode haver um pedido indireto de silêncio, mas a frase também pode ser apenas uma descrição. Sem contexto, o pedido não é obrigatório.
Uma paráfrase adequada preserva o conteúdo e a força da afirmação. Em algumas famílias solicitaram atendimento, trocar algumas por todas amplia indevidamente o alcance. Trocar pode favorecer por garante converte possibilidade em certeza. Expressões como sempre, apenas, principalmente e ainda exigem atenção porque delimitam frequência, exclusividade, predominância ou continuidade. O erro pode estar em uma única palavra, mesmo que o restante da alternativa reproduza o texto.
A organização dos parágrafos ajuda a reconhecer a progressão temática. Um parágrafo pode apresentar o problema; outro, explicar suas causas; o seguinte, propor uma solução. Um exemplo concreto não equivale automaticamente à conclusão geral. Se o autor relata uma experiência bem-sucedida de leitura compartilhada, esse relato pode apoiar sua defesa da atividade, mas não demonstra que ela resolve todas as dificuldades de aprendizagem em qualquer situação.
Os conectores explicitam relações. Porque pode introduzir causa ou explicação, conforme a construção. Portanto apresenta uma conclusão. Embora estabelece concessão: uma circunstância que poderia contrariar o resultado, mas não o impede. Mas marca oposição ou quebra de expectativa. Em a atividade foi breve, mas gerou discussão, a brevidade cria uma expectativa que o segundo segmento contraria. A leitura das palavras isoladas perde esse movimento argumentativo.
Pronomes e expressões equivalentes mantêm a continuidade do texto. Em a coordenação enviou uma orientação às professoras; elas a discutiram na reunião, elas retoma as professoras e a retoma a orientação. A proximidade entre palavras é uma pista, mas não basta: gênero, número, função e sentido precisam ser compatíveis. Uma retomada também pode resumir uma ideia inteira, como ocorre com essa medida após a descrição de uma mudança administrativa.
Textos narrativos organizam acontecimentos, personagens, espaço e tempo. A ordem em que os acontecimentos são apresentados pode diferir da ordem cronológica. Uma lembrança interrompe o presente da narrativa e permite explicar uma reação. O narrador em primeira pessoa participa da história, mas seu ponto de vista não deve ser confundido com uma verdade geral. Narrador, personagem e autor são instâncias distintas: uma avaliação atribuída a uma personagem não corresponde necessariamente à posição defendida pela obra.
Textos argumentativos defendem uma posição por meio de razões. A tese é a ideia defendida; o argumento procura sustentá-la. Exemplos, comparações e relações de causa e consequência podem servir à argumentação. Uma concessão reconhece parcialmente um ponto contrário sem abandonar a tese. Em o recurso digital amplia o acesso, embora não substitua a mediação docente, reconhecer a utilidade do recurso é compatível com limitar sua capacidade. A alternativa que elimina uma dessas partes empobrece o raciocínio.
Nos gêneros não literários, a situação de comunicação costuma delimitar diretamente a finalidade. Um aviso orienta ou informa; uma reportagem apresenta informações contextualizadas; um artigo de opinião sustenta uma avaliação. Ainda assim, nenhum gênero é definido por uma única palavra. Um texto informativo pode conter fala opinativa de entrevistado. A atribuição da fala precisa permanecer clara para que a opinião da fonte não seja indevidamente transferida ao responsável pela reportagem.
No texto literário, a linguagem pode construir ambiguidades, imagens, humor e ironia. Ironia ocorre quando o contexto permite reconhecer uma avaliação diferente do sentido aparentemente afirmado. A frase que organização exemplar! pode ser elogio ou crítica, dependendo da cena descrita. Um texto literário também pode empregar linguagem direta; um comunicado também pode incluir expressão figurada. A presença de metáfora, isoladamente, não define a natureza literária do texto.
Os distratores costumam inverter relações, exagerar conclusões, reduzir uma ideia complexa a um detalhe ou misturar uma informação correta com outra sem apoio. A avaliação de uma alternativa precisa abranger a frase inteira. Se ela começa corretamente e termina atribuindo uma intenção que o texto não apresenta, torna-se inadequada. Também merece cuidado a inversão entre causa e consequência: o fato de duas situações aparecerem juntas não prova qual produziu a outra.
Exemplo resolvido
No aviso A escola ampliará o horário da biblioteca para atender às turmas que estudam à tarde. O empréstimo continuará sujeito ao cadastro, qual é a finalidade da ampliação? 1. O segmento para atender indica finalidade. 2. Essa finalidade é atender às turmas do período da tarde. 3. A manutenção do cadastro restringe o empréstimo, sem desfazer a ampliação. 4. A conclusão correta preserva as duas informações e não afirma acesso sem cadastro.
Esquema
Construção da interpretação
1Identificar o assunto
Delimitar o tema
2Relacionar as partes
Reconhecer progressão e conectores
3Sustentar a conclusão
Usar pistas do texto
4Avaliar a alternativa inteira
Preservar alcance e intensidade
1.3.2 Sinônimos e antônimos no contexto
Sinônimos são palavras ou expressões com sentidos próximos em determinado contexto.
Essa proximidade não significa identidade absoluta em todos os usos. Em a direção apresentou uma proposta clara, clara pode ser substituída por compreensível. Em a sala é clara, o adjetivo se relaciona à luminosidade. A troca por compreensível não conserva esse significado. A unidade de análise é a expressão dentro da frase.
Uma substituição precisa preservar o conteúdo, a adequação gramatical e o registro. Iniciar e começar podem equivaler em iniciar a reunião. Já começar a reunião mantém uma construção diferente de dar início à reunião. Quando a alternativa oferece uma expressão inteira, a regência exigida por ela integra a avaliação. O significado pode ser próximo, mas a inserção precisa formar uma frase adequada.
| Expressão | Substituição contextual | Oposição possível |
|---|---|---|
| Orientação clara | Orientação compreensível | Orientação obscura |
| Atendimento breve | Atendimento curto | Atendimento demorado |
| Proposta viável | Proposta realizável | Proposta inviável |
Antônimos apresentam oposição de sentido. Há oposições graduáveis, como rápido e lento, que admitem posições intermediárias. Outras dependem de relações entre participantes, como comprar e vender: uma mesma transação pode ser descrita por perspectivas diferentes. O contexto determina qual oposição é pertinente. O contrário de claro em relação à iluminação pode ser escuro; quanto à compreensão, pode ser obscuro ou confuso.
A palavra substituta não pode acrescentar uma intensidade ausente. Preocupado não equivale necessariamente a desesperado. Bom não significa automaticamente excelente. Também não basta pertencer ao mesmo campo de significado: professor e aluno pertencem ao ambiente escolar, mas designam papéis diferentes. Associação temática não é sinonímia.
Em questões de reescrita, a preservação do sentido inclui as negações e os modificadores. Pouco frequente aproxima-se de raro, enquanto não raro expressa frequência considerável, dependendo do contexto. Apenas útil limita uma avaliação; muito útil intensifica essa avaliação. A escolha vocabular opera junto com as outras palavras da construção.
O procedimento de resolução consiste em reconstruir mentalmente a frase com a substituição e comparar os efeitos. Em a professora ponderou a proposta, ponderou pode significar examinou com cuidado. Trocar por rejeitou atribui uma decisão que o verbo não contém. Um distrator convincente costuma conservar o assunto e alterar precisamente essa relação semântica.
1.3.3 Sentido próprio e sentido figurado
Sentido próprio é o uso de uma palavra em sua acepção literal pertinente ao contexto. Sentido figurado resulta de uma transferência de significado. Em a servidora abriu a porta, a abertura é uma ação física. Em a leitura abriu portas para a turma, as portas representam oportunidades. A frase não descreve portas materiais, mas uma ampliação de possibilidades.
A identificação depende da relação entre o termo e aquilo a que ele se aplica. Em a discussão amadureceu, o desenvolvimento de uma ideia é apresentado por analogia com o amadurecimento de um fruto. Esse emprego não constitui erro: é um recurso de construção de sentido. A formulação literal aproximada seria a discussão se desenvolveu e ganhou consistência.
| Uso | Exemplo | Sentido |
|---|---|---|
| Próprio | A professora apagou a lousa | Remoção da escrita |
| Figurado | A decisão apagou a esperança | Desaparecimento de expectativa |
| Figurado | O projeto ganhou fôlego | Retomada de força |
A metáfora aproxima realidades por uma semelhança de características, sem depender de um comparativo explícito. Em a biblioteca é uma ponte para novas experiências, a ponte sugere ligação e acesso. A comparação, por sua vez, pode tornar explícita essa aproximação: a biblioteca funciona como uma ponte. O ponto decisivo é o efeito de sentido, e não apenas a presença ou ausência de uma palavra isolada.
A personificação atribui comportamento humano a seres ou entidades que não o apresentam literalmente. Em o relógio apressava os candidatos, o relógio é associado à pressão sentida durante a prova. Já a hipérbole intensifica uma ideia por exagero, como em havia uma montanha de formulários. A compreensão do exagero impede a leitura material da imagem.
Uma expressão figurada pode ser tão habitual que sua imagem passe despercebida. Raiz do problema e linha de raciocínio empregam termos associados a outros domínios para organizar ideias abstratas. A familiaridade não transforma automaticamente o emprego em descrição física.
A paráfrase adequada preserva o valor da imagem. Se o projeto ficou no papel significa que não foi executado, a alternativa que fala apenas em impressão de documentos se prende ao sentido material e perde o conteúdo. Também é inadequado interpretar qualquer emoção como figura de linguagem: a professora estava triste pode ser uma descrição direta de um estado emocional.
Esquema
Recursos de sentido figurado
Sentido figurado
Metáfora
Aproximação por semelhança
Personificação
Atribuição de comportamento humano
Hipérbole
Intensificação por exagero
Pegadinha de prova
Possibilidade não é certeza
Uma alternativa que transforma pode ocorrer em sempre ocorre altera a força da afirmação.
Pegadinha de prova
Opinião tem responsável
Uma fala citada pode expressar a posição de uma fonte sem representar a posição do autor.
Pegadinha de prova
Palavras próximas, sentidos diferentes
A sinonímia depende do contexto; palavras do mesmo assunto não são necessariamente equivalentes.
1.4 Exemplo resolvido
A coordenação informou: As oficinas foram ampliadas, mas a participação permanece facultativa. A leitura correta é: A) A ampliação tornou a participação obrigatória. B) A oferta aumentou e a participação continua opcional. C) As oficinas foram encerradas. D) A participação deixou de ser permitida. E) A coordenação proibiu novas oficinas.
- A primeira oração informa aumento da oferta.
- A segunda preserva o caráter facultativo, equivalente a opcional.
- A conjunção apresenta o contraste entre ampliação e manutenção da liberdade de participação.
Resposta: B) A oferta aumentou e a participação continua opcional.
1.5 Fixação
Questões inéditas.
F1inédita
Na frase “O parecer foi conciso, embora tratasse de uma questão complexa”, o antônimo contextual de “conciso” é
- A)breve.
- B)preciso.
- C)claro.
- D)prolixo.
- E)sintético.
F2inédita
Leia o trecho autoral: “Na primeira reunião, ninguém falou. Na segunda, uma mãe perguntou por que o pátio ficava fechado. Na terceira, já havia propostas para abri-lo. A escola começava a escutar.” Infere-se corretamente que
- A)a escola encerrou as reuniões após receber a pergunta.
- B)a participação ganhou espaço ao longo dos encontros.
- C)as famílias recusaram o uso coletivo do pátio escolar.
- D)a direção apresentou um projeto pronto no início.
- E)o silêncio inicial comprovava a aprovação das regras.
F3inédita
Em “Durante a conversa, a coordenadora construiu uma ponte entre as propostas divergentes”, a expressão “construiu uma ponte” significa que ela
- A)providenciou uma passagem física entre duas salas.
- B)substituiu as propostas por um projeto de engenharia.
- C)estabeleceu uma aproximação entre posições distintas.
- D)interrompeu a discussão para reformar o prédio.
- E)determinou o afastamento dos grupos envolvidos.
F4inédita
Em “A sala estava livre para a reunião” e “A pesquisadora era livre para escolher o método”, a palavra “livre” pode ser substituída, respectivamente, por
- A)autônoma e desocupada.
- B)gratuita e disponível.
- C)desimpedida e gratuita.
- D)desocupada e autônoma.
- E)independente e vazia.
F5inédita
Leia o texto autoral: “Instalamos uma caixa de sugestões para ouvir a comunidade. Ela ficou ao lado do cartaz: ‘Não são aceitas propostas de mudança’. A caixa permaneceu vazia. A direção celebrou o consenso.” A ironia do texto decorre de
- A)associar o consenso à participação de todos os moradores.
- B)apresentar o cartaz como convite a mudanças imediatas.
- C)atribuir o vazio da caixa à falta de papel na escola.
- D)considerar a caixa um meio inadequado de registrar textos.
- E)tratar o silêncio imposto como sinal de concordância.
1.6 Questões oficiais da Vunesp
Questões oficiais de provas anteriores, com a fonte.
Q1oficial · Pref. Osasco/SP 2026
Meus pais sempre me pareceram, aos olhos da criança que fui, perfeitos. Eu agradecia a Deus por ter nascido em um lar tão abençoado, onde tudo funcionava, e ai de quem duvidasse. Até que cresci e passei eu mesma a duvidar: ora, quem é perfeito? Eu me furtaria a vergonha de passar o resto da vida inebriada pela própria ilusão. Passei a glorificar o imperfeito e segui amando todos eles, já que ninguém é perfeito. Estou longe de desprezar genialidades, como uma foto de Sebastião Salgado, uma página de Guimarães Rosa, o canto de Caetano Veloso. Aproximam-se do sagrado. Mas quando desço desse altar e caio no mundano, é pela imperfeição que me enamoro. Faço todo esse preâmbulo para que eu possa exaltar o que está fora de foco. O abandono da excelência a favor da essência. Andamos obcecados por qualidade técnica, filtros que eliminam defeitos, nenhum ruído escapando, nenhum fio solto, a artificialidade substituindo o que é verdadeiro. A essência, ao contrário, é inexata, transcende, se move, esparrama. A essência não se falsifica, transforma a própria falha em gozo. Sabe que o excelente, ou é um gênio, ou um impostor. Adoro, especialmente, fotos desfocadas, com sua imperfeição poética, humana. São retratos em movimento: da gente dançando, correndo, gesticulando. Somos borrões capturados por olhares objetivos, mas está para nascer quem nos possa reduzir a uma única dimensão. Temos várias versões sobrepostas, somos reais assim como somos fictícios, seres indeterminados fazendo o possível para se enquadrar, só que um pedaço de nós sempre invade o contorno limitador e escorre para fora. Queremos ser vistos com nitidez, eu sei, mas também somos aquele ser indefinido por trás do espelho embaçado no banheiro. (Martha Medeiros. “A arte de falhar: um elogio ao que está fora de foco”,
É correto afirmar, com base nas informações presentes no texto, que
- A)a autora do texto se vale da ideia de imagens sem foco como exemplo da beleza do que é natural.
- B)as obras de artistas de várias áreas são tidas pela autora do texto como algo de pouco valor.
- C)a perfeição dos pais da autora do texto era, para ela, algo caro, mas que ela não tornava público.
- D)a autora do texto se envergonha até hoje de ter acreditado que sua família era altamente funcional.
- E)a ideia de que somos muitos em um único ser é corroborada pela busca humana de perfeição.
Q2oficial · Pref. Osasco/SP 2025
Ilha Brasil Por mais de 500 anos, quando o conhecimento sobre a geografia do planeta ainda engatinhava, chegou a ser comum em mapas da Europa a presença de uma ilha misteriosa próxima à costa da Irlanda que, depois se descobriria, nunca existiu de fato. Navegadores europeus que se lançaram ao Atlântico antes e depois da chegada às Américas vasculharam o oceano à sua procura, na esperança de encontrar nela um paraíso terrestre. A crença vinha do folclore celta, que descreveu o lugar como um destino de saúde e alegria abundantes, onde a juventude era eterna. A ilha se chamava Brasil. Ela apareceu pela primeira vez na cartografia em um mapa-múndi medieval confeccionado por volta de 1280. A partir daí, voltou a ser retratada em pelo menos outros 121 mapas, até 1873, conforme a pesquisa feita pelo jornalista Geraldo Cantarino, autor de Uma Ilha Chamada Brasil: o Paraíso Irlandês no Passado Brasileiro. A história milenar do mito e suas diferentes manifestações levaram alguns autores a argumentar que a ilha também teria influenciado o batismo do país que hoje compartilha o nome com ela — o Brasil, no caso. A versão repetida nas escolas e nos livros didáticos é a de que o país foi assim batizado por conta da árvore de madeira vermelha explorada por Portugal nos primeiros anos de colonização, o pau-brasil. Roger Casement, um diplomata britânico que no início do século 20 foi cônsul em Santos (SP), em Belém (PA) e no Rio de Janeiro, chegou a apresentar um artigo que intitulou Irish Origins of Brazil [Origens irlandesas do Brasil], em que defendia que, “por mais estranho que possa parecer, o Brasil deve o seu nome não à abundância de um certo pau-de-tinta, mas à Irlanda”. Casement argumentava que o nome Brasil habitou o imaginário dos europeus séculos antes da colonização das Américas, que continuava vivo na época em que eles se lançaram ao Atlântico, como mostram os mapas e as histórias da época, que haviam inclusive inspirado muitas viagens marítimas. (Camilla Veras Mota. Ilha Brasil: por que Irlanda tem uma terra mítica com o nome do nosso país. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/ articles/cg72dvjjdz3o. Acesso em 30/04/2025)
Há palavra ou expressão empregada em sentido figurado na frase:
- A)Por mais de 500 anos, quando o conhecimento sobre a geografia do planeta ainda engatinhava... (1o parágrafo)
- B)... chegou a ser comum em mapas da Europa a presença de uma ilha misteriosa próxima à costa da Irlanda... (1o parágrafo)
- C)A crença vinha do folclore celta, que descreveu o lugar como um destino de saúde e alegria abundantes... (1o parágrafo)
- D)A história milenar do mito e suas diferentes manifestações levaram alguns autores a argumentar... (4o parágrafo)
- E)... por conta da árvore de madeira vermelha explorada por Portugal nos primeiros anos de colonização... (4o parágrafo)
Q3oficial · Pref. Estância Turística de Tremembé/SP 2026
Saudade da coxa de catupiry Sou do tempo dos salgadinhos reconhecíveis. Você me entende: do tempo em que, diante da bandeja, a gente não tinha dúvidas ‒ o que ali estava era croquete, coxinha, empadinha. Sem chance de equívoco. Bem diferente, admita, dos dias de hoje, em que é preciso recorrer ao garçom para decifrar enigmas culinários, alguns deles tão complexos e empetecados que você se pergunta se não seriam, em vez de comida, peças decorativas. Sim, vivemos a era do salgadinho que demanda apresentação. Deveria vir com legenda. Nada contra a modernização do tira-gosto. Mas me dê um tempo para me adaptar. Outro dia, num casamento, estenderam na minha direção um artefato aparentemente comestível, algo como uma coxinha esférica, acoplada a um talo branco. Era, de fato, uma minicoxinha ‒ mas e o misterioso talo branco, grosso demais para ser palito? Na roda, um convidado mais ousado se aventurou a mastigá-lo, e aí se deu conta de que, naquele casamento chique, ele tinha na boca um vulgar pedaço de cana. Coxinha com cana ‒ onde vamos parar? E o que fazer com o bagaço? Muita coisa surgiu na vida de meus maxilares tão fatigados desde a primeira dentição. Na minha infância belo-horizontina não tinha shitake, rúcula e kiwi, por exemplo. Em compensação, tinha Crush, drops Dulcora, açúcar cândi, que depois sumiram do mapa. Como sumiu o cajuzinho. Onde foi parar o cajuzinho? Você vai me dizer que não sei onde tem uma “dona” que faz. Coisas de Belo Horizonte: em alguma parte, tem sempre uma dona que faz o docinho, o salgadinho que desapareceu das vitrines. Não duvido de que nalgum recanto da capital haja uma dona do cajuzinho. Vai ver que é a mesma do bolinho de feijão. (Humberto Werneck. Esse inferno vai acabar, 2011. Adaptado)
É correto afirmar que, em sua infância, o narrador
- A)tinha o hábito de andar pela cidade de Belo Horizonte à procura de alguém que ainda fizesse cajuzinhos.
- B)desconhecia certos ingredientes que seus familiares tinham o hábito de usar para fazer salgadinhos e docinhos.
- C)costumava consumir certos produtos que, a partir de um certo momento, não se encontravam mais.
- D)evitava ao máximo comer alimentos que contivessem ingredientes diferentes como shitake, rúcula ou kiwi.
- E)enfrentou problemas relacionados à primeira dentição, o que o impediu de conhecer determinados alimentos.
Q4oficial · Pref. Sorocaba/SP 2025
Espírito original do SUS é vital para o país O Sistema Único de Saúde (SUS) entrou em vigor há 35 anos, dois anos após ter sido criado a partir da Constituição Federal de 1988. Lançado como resposta a um clamor por justiça social e igualdade no acesso à saúde, o sistema foi inspirado nos princípios da universalidade, integralidade e equidade, e, não se pode negar, tornou-se um dos maiores sistemas públicos de saúde do planeta. Atualmente, é responsável por cerca de 75% dos atendimentos de saúde no país, segundo o governo federal. Ele abrange desde o atendimento básico até procedimentos de alta complexidade, como transplantes de órgãos – área em que o Brasil é o segundo maior do mundo em volume de transplantes públicos, atrás apenas dos Estados Unidos. Não é à toa que a revista americana Newsweek divulgou seu ranking anual dos melhores hospitais do mundo em 12 especialidades médicas e o Brasil marcou presença com 22 instituições – sendo sete públicas e 15 privadas. O levantamento considerou recomendações de profissionais de saúde, dados de acreditação e certificações, e indicadores de resultados percebidos pelos pacientes, como melhora dos sintomas e satisfação com o tratamento recebido. Vale destacar também o protagonismo do SUS durante a pandemia da covid-19. Em um dos momentos mais críticos da história recente, o sistema liderou a campanha de vacinação que alcançou mais de 80% da população com esquema primário completo, reafirmando a expertise do país em campanhas de imunização em massa. O modelo, inclusive, já foi elogiado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, especialistas daqui e de fora também apontam suas fragilidades. A desigualdade no acesso – especialmente em áreas rurais e periféricas –, os longos tempos de espera e a fragmentação dos serviços são vistos como entraves à eficiência do sistema. Da mesma forma, preocupa a dificuldade para o fortalecimento do setor primário – voltado para a prevenção e, portanto, mais estratégico do ponto de vista da saúde pública. Outro problema crônico é o subfinanciamento. Segundo dados do Conselho Nacional de Saúde, o Brasil investe cerca de 9,6% do PIB em saúde, mas apenas 3,9% são recursos públicos, nível inferior à média de países com sistemas universais. Aos 35 anos, é hora de resgatar o espírito original do Sistema Único de Saúde – um sistema público, gratuito, eficiente e humano. Para isso, não basta só vontade política. É preciso coragem para enfrentar interesses corporativos e colocar a vida acima do lucro. Afinal, trata-se de um lema do SUS: “Saúde é direito de todos e dever do Estado”. (Editorial. https://www.correiobraziliense.com.br/opiniao, 19.09.2025. Adaptado.)
O último parágrafo do texto permite concluir corretamente que o SUS deve
- A)garantir a gratuidade e a eficiência à população, sendo suas atividades financiadas pelo setor privado do país.
- B)abdicar de interesses políticos e agregar, de forma saudável e responsável, os interesses corporativos.
- C)buscar um novo espírito, associando vontade política e interesses financeiros, para defender o seu lema.
- D)deixar os interesses econômicos de lado e pautar seu atendimento na gratuidade, quando for possível.
- E)recuperar seus princípios básicos, opondo-se aos interesses corporativos e fazendo valer o seu lema.
Q5oficial · TJ/SP Escrevente Técnico Judiciário 2025
Texto base: Passaporte da cultura Ao lado dos brasileiros, o povo mais musical que tive o privilégio de conhecer são os cabo-verdianos. O amor incondicional que nutrem pelo país e pelos seus ritmos não tem paralelo. Um amor libertador, que não precisa possuir para se validar. Um amor não exigente, mas que se faz presente na língua que todos aprendem a falar desde o berço — ou melhor, a declamar e a cantar desde o ventre. Não é exagero: todos os cabo-verdianos que conheço são poetas. Embora se reconheça Cesária Évora como sendo a voz que revelou a alma do arquipélago, existe nas montanhas longínquas do interior de Santiago um gênero que já sofrera os seus desafios de silenciamento. Uma música catártica, crua e negra com a qual gerações novas se reconciliaram e aprenderam a reivindicar a sua herança africana. A música continua a ser o passaporte da cultura cabo-verdiana no mundo. Está presente em todos os momentos marcantes da história do país, e é por meio dela que as memórias ancestrais são catalogadas e transportadas para o futuro. Um dos músicos mais celebrados da nação é Orlando Pantera, um cometa que viveu na terra por escassos 33 anos. Não gravou nenhum álbum, morreu no dia em que iniciaria, em Paris, as gravações do disco que confirmaria aquilo que os habitantes da ilha de Santiago já sabiam: era um gênio. E um dos poucos que conseguiu transportar para a canção o sentir das gentes dos campos, os esquecidos, os seus ritmos e desejos. (Kalaf Epalanga. Minha pátria é a língua pretuguesa: Crônicas. 2023. Adaptado)
Da perspectiva apresentada pelo cronista, conclui-se corretamente que
- A)brasileiros e cabo-verdianos são povos intensamente musicais, sendo estes caracterizados por expressarem por meio das canções o seu amor ao país em que vivem.
- B)memórias ancestrais encontram na música dos brasileiros e dos cabo-verdianos a forma de serem transportadas para o futuro, sendo a voz daqueles a mais celebrada.
- C)montanhas longínquas do interior de Santiago abrigam as tristezas do povo cabo-verdiano, que busca inspirações nas canções dos brasileiros para romper o silenciamento.
- D)todos os cabo-verdianos nutrem amor pela música, que passam a amar intensamente depois de nascerem e por meio da qual buscam expressar suas memórias.
- E)cantores como Cesária Évora e Orlando Pantera ratificam a superioridade de Cabo Verde em relação a outros países, principalmente o Brasil, cujo povo é bem musical.
Q6oficial · Polícia Militar/SP 2025
Assassinato digital Ao contrário de tempos passados, quando sumir com alguém exigia certo grau de dificuldade e até risco criminal, hoje tornou-se facílimo dar fim a uma pessoa. Bastam um dedo e algumas teclas. É possível mudar completamente o círculo de amizades, sumir da turma, buscar novos ares, sem grandes enfrentamentos. Um amigo estava falando de sua ex: “Bloqueei”. Explicou que bloqueou em tudo: no WhatsApp, no Instagram, no Face. Em qualquer outra rede social, uma pessoa existe ou não existe. Se é bloqueada em todos os canais em que pode se comunicar com a outra, tecnicamente não existe mais. Simplesmente deixa de estar presente. Mesmo porque, na atualidade, a presença é mais digital que física em um número imenso de casos. Houve um tempo em que eu me admirava ao dar uma “limpa” no celular. Por que tanta gente, com quem nunca converso, tantos endereços que já não fazem parte do meu dia a dia? Para meu susto, recebi reclamações: “Por que você me deletou?”, “Me bloqueou?”. Na prática, respondia: “Porque a gente não se falava mais”. Descobri que estar na minha rede mesmo sem papo era um modo de afirmar a existência da pessoa em minha vida. Portanto, era ofensivo ser excluído. Parecia sem sentido. Mas entendi. Se a pessoa for deletada ou, pior, bloqueada, simplesmente deixa de existir. A comparação é forte, mas inevitável: morre. Eu ainda acredito nas relações de carne e osso, nos abraços, nos encontros longos e profundos. Mas descubro que os relacionamentos digitais tomaram um espaço impressionante. Deletar equivale a dizer adeus. E dizer adeus é sempre uma forma de luto. (Walcyr Carrasco. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/walcyr-carrasco/assassinato-digital/. Acesso em 28/09/2025. Adaptado)
A respeito das transformações nas formas de relacionamento interpessoal com as tecnologias digitais, o autor do texto
- A)reconhece o impacto das redes sociais, mas valoriza, acima delas, as relações presenciais e concretas.
- B)afirma que, no passado, as relações humanas eram menos sólidas, pois não havia redes sociais para mantê-las.
- C)considera que o bloqueio em redes sociais não gera maiores consequências para a percepção da existência do outro.
- D)entende que excluir alguém das redes sociais, nos dias de hoje, é um crime mais grave do que matar uma pessoa.
- E)defende que as relações digitais substituíram de forma saudável e definitiva os vínculos presenciais.
Q7oficial · Pref. Campinas/SP 2025
Nunca houve tanto diagnóstico de transtorno neurológico infantil. Em apenas um ano, entre 2022 e 2023, cerca de 200 mil crianças e adolescentes com Transtorno do Espectro Autista (TEA) foram matriculados em salas de aula comuns no Brasil, um aumento de 50% segundo o Censo de Educação Básica. Mais do que uma questão para as famílias, esse cenário reflete um novo desafio nos colégios, que só deve crescer neste ano: o de como lidar com salas de alunos cada vez mais diversas e complexas. Toda criança atípica tem direito a adaptação escolar para que consiga acompanhar pedagogicamente sua turma. “O papel da escola é ensinar da maneira que a criança aprende. A professora colocar todo mundo na cadeira, passar uma fórmula e, se o aluno não atingir a nota, ele é que é errado não é a essência da escola”, afirma a neuropsicopedagoga Ingrid Garrido. “O cérebro da criança atípica não funciona desse jeito. Então é essa criança que vai sempre para a coordenação, é essa que vão achar que é mal educada.” “Quando saímos da licenciatura não estamos preparados nem para os alunos considerados típicos, quanto mais para os atípicos. Aprende-se na marra!”, brinca a professora Rosangela Senger, que está há 33 anos na profissão e já teve sala em que um aluno tinha TEA, três TDAH e um TOD (transtorno opositor desafiador). Para Rosangela, trabalhar em parceria com a família e os terapeutas é o melhor caminho, independentemente da necessidade em questão. “Não acredito que seja papel somente da escola oferecer a formação ao professor, mas este precisa buscar um aprofundamento para que seus alunos se desenvolvam da melhor forma. Mas te digo: ultimamente, a falta de limite, interesse e respeito de alunos considerados típicos é a nossa maior luta diária.” (Luciana Garbin. Há cada vez mais diagnóstico de TDAH, autismo e outros transtornos: pais e escolas estão preparados? Disponível em: www.estadao.com.br/cultura, 12.02.2025. Adaptado)
Na opinião da professora Rosangela Senger,
- A)embora trabalhar com alunos atípicos seja desafiador, a adversidade contemporânea é sobretudo lidar com o desprezo dos alunos típicos pela escola.
- B)a escola deve oferecer formação especializada para o professor que assume salas com alunos atípicos, principalmente se ele não procura se especializar.
- C)não levar os transtornos tão a sério, como fazem a escola e os terapeutas, é a melhor saída para conseguir trabalhar com salas em que há alunos atípicos.
- D)o maior desafio de sua carreira foi trabalhar com uma sala de aula em que cinco alunos tinham diagnósticos distintos de transtorno neurológico.
- E)o deficit na formação acadêmica de professores em relação a transtornos neurológicos é a razão pela qual crianças atípicas não conseguem aprender.
Q8oficial · Pref. de Vista Alegre do Alto/SP 2025
Democracia digital Nas primeiras duas décadas do século 21, o desenho da sociedade e de suas instituições sofreu grandes alterações com o uso das redes sociais, da inteligência artificial e de outras ferramentas capazes de utilizar um gigantesco volume de dados na internet para os mais diversos fins. Por um lado, abriu-se caminho para vozes historicamente silenciadas, a exemplo de jovens indígenas que passaram a compartilhar sua realidade e reivindicações sem intermediários, nas redes. Por outro, pavimentou-se uma via de disseminação de fake news, polarização ideológica e discursos de ódio. Nesse cenário, de que forma a expansão das novas tecnologias vem afetando a democracia? Autor de A democracia no mundo digital: histórias, problemas e temas, o professor e pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Wilson Gomes chama a atenção, primeiramente, para as maneiras como as novas tecnologias vêm sendo utilizadas em diferentes contextos geopolíticos. “A chamada democracia digital depende de uma escolha: a decisão de usar os recursos digitais – plataformas, redes, dados, algoritmos, automações – para fortalecer valores, práticas e instituições democráticas. Mas essa decisão só pode ser tomada por sociedades convictas de que a democracia é a melhor forma de governo. Quando essa convicção vacila e os regimes são atacados, os mesmos recursos podem ser empregados com igual eficácia para solapar os fundamentos da vida democrática”, alerta. Segundo Gomes, nos encontramos diante de uma encruzilhada. “Há os que acreditam que a guerra pelos usos sociais das tecnologias foi vencida pelos inimigos da democracia – que as plataformas, os algoritmos e os fluxos digitais estão, irremediavelmente, capturados por lógicas autoritárias, mercadológicas ou identitárias intolerantes. Mas há, também, os que veem na resistência institucional, nas pesquisas emergentes, na regulação pública e nos novos experimentos democráticos digitais um caminho viável para reverter o jogo.” (Revista E, 01.09.2025. Disponível em: https://www.sescsp.org.br/ editorial/democracia-digital/. Adaptado)
De acordo com o texto, a ideia de uma democracia digital para Wilson Gomes
- A)é ilusória, visto que desconsidera os usos que se faz dos recursos digitais para divulgar fake news e discursos de ódio.
- B)envolve desafios que não existiam antes em nossa sociedade, como o combate ao autoritarismo e à intolerância.
- C)depende de que, antes de tudo, a própria sociedade faça uma opção pela democracia como forma de governo.
- D)é viável com a condição de que sejam eliminados os algoritmos, visto que eles reforçam os discursos de ódio.
- E)pode motivar algumas pessoas a se questionarem se, apesar das aparências, vivemos de fato em uma democracia.
Q9oficial · Pref. Itapevi/SP 2025
Por que agora a solidão nos adoece? Para Vivek Murthy, cirurgião-geral e principal autoridade de saúde pública dos EUA, “a teoria evolutiva da solidão de John Cacioppo* está enraizada na observação de que os humanos sobreviveram como espécie não porque temos vantagens físicas como tamanho, força ou velocidade, mas por causa de nossa capacidade de nos conectar em grupos sociais”. Essa teoria define a solidão como um estímulo para uma necessidade básica: a de nos conectar. “Assim temos uma maior chance de adaptação ao nosso ambiente”, defendeu o psiquiatra Thyago Antonelli-Salgado, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). “Se pensarmos nos primatas, humanos e não-humanos, com um comportamento de grupo, eles se protegeram contra a ameaça de predação, a escassez de recursos, e, assim, houve uma seleção natural desses indivíduos”, explicou. Hoje, todavia, segundo os especialistas, a solidão é mais prevalente e intensa do que nunca e se configura como um grave problema de saúde pública. Em relatório de 2023, Murthy destaca que essa condição está associada a um risco maior de doença cardiovascular, demência, AVC, depressão, ansiedade e morte prematura. “O impacto de estar socialmente desconectado na mortalidade é semelhante ao causado por fumar até 15 cigarros por dia.” Por enquanto, as principais evidências não são capazes de cravar essa relação de causa e efeito. De qualquer forma, o crescente arcabouço científico tem deixado países em alerta. O Japão criou um “Ministério da Solidão”, e, no Reino Unido, uma secretária foi nomeada para combatê-la. O ponto chave que envolve a solidão é o sofrimento. Entretanto a redução de interações pode ser feita com um objetivo maior, como autoconhecimento ou necessidade profissional (escrever um livro, por exemplo), não estando, portanto, associada a alguma repercussão negativa. Nesse caso, falamos de solitude. Antonelli-Salgado aponta que a solidão não pode ser tema abordado apenas na velhice. A importância da conexão social precisa ser ensinada desde cedo. “Muitas vezes, a gente ensina às crianças que, mesmo sem fome, é importante comer para crescer forte. É preciso tomar água para se hidratar. Mas não falamos sobre a importância de ter boas conexões sociais para que haja uma maior qualidade de vida.” Para ele, bons vínculos têm a ver com profundidade, com estabelecer efetivas relações sociais e pensar que elas são sempre uma troca. (Leon Ferrari. Disponível em: www.estadao.com.br/saude/a-solidao-nosajudou-a-sobreviver-por-que-agora-nos-adoece-especialistas- -explicam/?utm_source=estadao:mail. Adaptado) * John T. Cacioppo (1951-2018): professor da Universidade de Chicago, onde fundou o Centro da Neurociência Cognitiva e Social.
É correto afirmar que o texto
- A)identifica o campo de atuação dos especialistas citados com o intuito de dar credibilidade ao que eles defendem acerca de solidão e saúde pública.
- B)parte de relatos de pessoas acometidas pela solidão e que buscam soluções para o problema da falta de conexão com outras pessoas.
- C)apresenta opiniões de profissionais da área da cirurgia e da psiquiatria que divergem quanto à classificação dos problemas de saúde pública.
- D)deixa subentendido que nosso país deve se pautar pelas ações bem-sucedidas, empreendidas por Japão e Reino Unido, no enfrentamento da solidão.
- E)reproduz a linguagem complexa dos tratados de medicina, apesar de ser um artigo jornalístico destinado a todos os leitores do periódico.
Q10oficial · Pref. Presidente Prudente/SP 2025
Estratégias de sobrevivência Hoje bateu uma saudade danada de visitar uma feira literária, conversar com leitores, assinar os seus livros, tirar a selfie de praxe e num abraço agradecer-lhes por manterem viva essa coisa tão necessária para a nossa saúde mental a que chamamos de literatura. Me deu até saudade de algo que não faço desde que me mudei para Berlim: visitar escolas do ensino secundário no Portugal mais remoto, como Vila Nova de Paiva, Penalva do Castelo, Arruda ou Sobral de Monte Agraço, lugares que nunca me ocorreria visitar se não fosse pelos livros e pela curiosidade em conhecer o outro. Colhi tanto prazer nisso que não o via como sacrifício. Contrariando os meus hábitos de notívago, despertava com uma alegria de criança aniversariante, antes do galo cantar. Vestia a minha camisa e gravata favoritas e corria para a estação de comboio de Santa Apolónia, cruzando-me no caminho com outros madrugadores como eu, lisboetas por nascimento ou afeto, africanos europeus, irmãos da diáspora que fazem parte do leque de personagens que pululam em muitas das minhas histórias. Esses personagens me acompanharam da Flip em Paraty ao Africa Writes em Londres, do Elinga Teatro em Luanda à Escola Secundária de Penalva do Castelo, uma vila do distrito de Viseu, não muito longe de Fornos de Algodres e Mangualde. Na biblioteca da escola, um tanto retraídos, duas dezenas de alunos aguardavam pacientemente pela minha apresentação. (Kalaf Epalanga. Minha pátria é a língua pretuguesa [Crônicas], 2023. Adaptado)
A leitura do texto permite concluir corretamente que o narrador é um
- A)professor de ensino secundário saudoso dos alunos de Portugal.
- B)escritor reconhecido, que se mostra devotado à arte da escrita.
- C)crítico literário, que analisa o impacto da literatura nas escolas.
- D)pretenso escritor, que vivencia o magistério antes da literatura.
- E)bibliotecário e professor, que fomenta a literatura nas escolas.
1.7 Gabarito comentado
P1inédita · pré-testeResposta: C
- A: A alternativa A atribui ao esporte uma perda de interesse que o texto não informa.
- B: A alternativa B introduz uma obrigação de leitura ausente do texto.
- D: A alternativa D confunde acesso no intervalo com transferência de aulas.
- E: A alternativa E associa o lanche a uma carência alimentar não mencionada.
P2inédita · pré-testeResposta: A
- B: A alternativa B indica duração limitada, não possibilidade de execução.
- C: A alternativa C destaca o custo, que não define a viabilidade.
- D: A alternativa D indica falta de previsão, não possibilidade de realização.
- E: A alternativa E indica que algo pode ser dispensado, não realizado.
P3inédita · pré-testeResposta: E
- A: A alternativa A emprega “abriu” para a movimentação concreta de uma janela.
- B: A alternativa B emprega “guardou” para a colocação concreta de um objeto.
- C: A alternativa C descreve a posição física de um vaso sobre uma mesa.
- D: A alternativa D emprega “fechou” para a ação concreta sobre um portão.
F1inéditaResposta: D
- A: A alternativa A reforça a ideia de extensão reduzida.
- B: A alternativa B trata de exatidão, que pode coexistir com concisão.
- C: A alternativa C trata de compreensão, que pode coexistir com concisão.
- E: A alternativa E aproxima-se de “conciso”, pois indica síntese.
F2inéditaResposta: B
- A: A alternativa A contraria a existência do terceiro encontro.
- C: A alternativa C atribui uma recusa que as propostas de abertura não sustentam.
- D: A alternativa D inventa um projeto pronto e uma iniciativa da direção.
- E: A alternativa E trata o silêncio como aprovação, sem base textual.
F3inéditaResposta: C
- A: A alternativa A interpreta literalmente uma imagem aplicada à conversa.
- B: A alternativa B transforma indevidamente a discussão em obra material.
- D: A alternativa D introduz uma interrupção e uma reforma inexistentes.
- E: A alternativa E inverte a ideia de ligação expressa pela ponte.
F4inéditaResposta: D
- A: A alternativa A inverte os sentidos pertinentes aos dois contextos.
- B: A alternativa B introduz gratuidade no primeiro trecho.
- C: A alternativa C introduz ausência de pagamento no segundo trecho.
- E: A alternativa E atribui independência à sala e vazio à pesquisadora.
F5inéditaResposta: E
- A: A alternativa A supõe participação efetiva que o relato não comprova.
- B: A alternativa B inverte o conteúdo proibitivo do cartaz.
- C: A alternativa C inventa uma causa material para o silêncio.
- D: A alternativa D desloca a crítica para o suporte, sem apoio textual.
Q1oficialResposta: A
- B: A alternativa B contraria o reconhecimento das genialidades artísticas, aproximadas do sagrado.
- C: A alternativa C inventa uma reserva íntima: a narradora defendia enfaticamente a perfeição familiar.
- D: A alternativa D transforma a vergonha que ela procurou evitar em sentimento permanente.
- E: A alternativa E associa a multiplicidade à perfeição, quando o texto a associa à impossibilidade de reduzir alguém a uma imagem nítida.
Fonte: Pref. Osasco/SP 2026 — prova em pciconcursos.com.br
Q2oficialResposta: A
- B: A alternativa B descreve a posição geográfica atribuída à ilha nos mapas, sem a transferência destacada no comando.
- C: A alternativa C apresenta o conteúdo da crença celta em linguagem descritiva.
- D: A alternativa D relata a argumentação de autores sobre o mito.
- E: A alternativa E descreve literalmente a árvore e a exploração da madeira.
Fonte: Pref. Osasco/SP 2025 — prova em pciconcursos.com.br
Q3oficialResposta: C
- A: A alternativa A atribui à infância uma busca que o texto apenas imagina no presente.
- B: A alternativa B inventa o uso familiar de ingredientes ausentes de sua infância.
- D: A alternativa D transforma a inexistência dos ingredientes naquele contexto em rejeição pessoal.
- E: A alternativa E interpreta a menção bem-humorada aos maxilares como relato de impedimento odontológico.
Fonte: Pref. Estância Turística de Tremembé/SP 2026 — prova em pciconcursos.com.br
Q4oficialResposta: E
- A: A alternativa A acrescenta financiamento pelo setor privado, ausente da conclusão.
- B: A alternativa B propõe agregar interesses corporativos que o editorial manda enfrentar.
- C: A alternativa C substitui o resgate de princípios por um novo espírito associado a interesses financeiros.
- D: A alternativa D condiciona a gratuidade à possibilidade, restrição que o editorial não apresenta.
Fonte: Pref. Sorocaba/SP 2025 — prova em pciconcursos.com.br
Q5oficialResposta: A
- B: A alternativa B estende aos brasileiros uma descrição desenvolvida sobre Cabo Verde e inventa uma voz mais celebrada.
- C: A alternativa C inventa inspiração brasileira para a música do interior de Santiago.
- D: A alternativa D contraria a imagem de uma relação com a música que começa desde o ventre.
- E: A alternativa E transforma admiração em superioridade nacional, não defendida pelo cronista.
Fonte: TJ/SP Escrevente Técnico Judiciário (2025) — prova em pciconcursos.com.br
Q6oficialResposta: A
- B: A alternativa B atribui menor solidez às relações antigas, avaliação ausente do texto.
- C: A alternativa C nega justamente as consequências afetivas que o autor passa a compreender.
- D: A alternativa D transforma a comparação figurada com a morte em classificação criminal literal.
- E: A alternativa E inventa aprovação de uma substituição saudável e definitiva das relações presenciais.
Fonte: Polícia Militar/SP 2025 — prova em pciconcursos.com.br
Q7oficialResposta: A
- B: A alternativa B concentra a responsabilidade na escola, enquanto Rosangela rejeita que ela seja a única responsável.
- C: A alternativa C inventa uma defesa de minimizar os transtornos e desconsiderar terapeutas.
- D: A alternativa D transforma um exemplo de turma em maior desafio de toda a carreira.
- E: A alternativa E cria relação causal absoluta entre formação docente e impossibilidade de aprendizagem.
Fonte: Pref. Campinas/SP 2025 — prova em pciconcursos.com.br
Q8oficialResposta: C
- A: A alternativa A converte uma possibilidade condicionada em impossibilidade absoluta.
- B: A alternativa B afirma que autoritarismo e intolerância não existiam antes das novas tecnologias.
- D: A alternativa D inventa a eliminação dos algoritmos como exigência, quando o texto discute seus usos.
- E: A alternativa E desloca a tese para uma dúvida individual que não constitui a definição apresentada.
Fonte: Pref. de Vista Alegre do Alto/SP 2025 — prova em pciconcursos.com.br
Q9oficialResposta: A
- B: A alternativa B afirma que o ponto de partida são depoimentos de pessoas solitárias, inexistentes na abertura.
- C: A alternativa C inventa divergência sobre a classificação dos problemas de saúde pública.
- D: A alternativa D atribui ao texto uma recomendação ao Brasil e sucesso comprovado das medidas estrangeiras.
- E: A alternativa E confunde a presença de termos técnicos explicados com a linguagem complexa de um tratado.
Fonte: Pref. Itapevi/SP 2025 — prova em pciconcursos.com.br
Q10oficialResposta: B
- A: A alternativa A confunde visitas a escolas com exercício do magistério.
- C: A alternativa C atribui atividade de crítica literária que o narrador não descreve.
- D: A alternativa D nega uma trajetória literária já demonstrada por leitores e eventos.
- E: A alternativa E transforma o local de uma apresentação em profissão do narrador.
Fonte: Pref. Presidente Prudente/SP 2025 — prova em pciconcursos.com.br
1.8 Revisão relâmpago e mapa de revisão
- Tema é o assunto geral; tese é a posição defendida.
- A inferência precisa de apoio nas pistas do texto.
- Uma paráfrase deve preservar alcance e intensidade.
- Concessão reconhece um obstáculo que não impede o resultado.
- Narrador e autor não são automaticamente a mesma instância.
- Sinônimos precisam funcionar na frase concreta.
- O sentido figurado transfere características entre domínios.
- A opinião de uma fonte não se atribui automaticamente ao autor.
Mapa de revisão
Reveja este capítulo em 1, 7 e 30 dias.
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