Matéria 01
Língua Portuguesa
O que o edital pede nesta matéria
- 1Leitura, compreensão e interpretação de textos: gêneros variados, incluindo textos argumentativos, normativos, científicos e jornalísticos; análise crítica e inferencial.
- 2Estruturação do texto e dos parágrafos: organização, progressão e hierarquia das ideias.
- 3Articulação textual: pronomes e expressões referenciais, nexos, operadores sequenciais e conectivos.
- 4Coesão e coerência textual: mecanismos de coesão referencial, lexical e sequencial.
- 5Reescrita de frases: equivalência e transformação de estruturas; paralelismo sintático e semântico.
- 6Significação contextual de palavras e expressões: sinonímia, antonímia, polissemia, ambiguidade e denotação/conotação.
- 7Norma-padrão da língua portuguesa: ortografia oficial, acentuação gráfica e pontuação.
- 8Morfologia, estrutura e formação de palavras.
- 9Emprego das classes de palavras.
- 10Sintaxe e construção frasal: análise sintática dos termos da oração e do período simples e composto (coordenação e subordinação).
- 11Concordância verbal e nominal.
- 12Regência verbal e nominal.
- 13Colocação pronominal.
- 14Crase.
- 15Variação linguística e adequação da linguagem.
- 16Figuras de linguagem.
- 17Linguagem e tecnologia: gêneros digitais, comunicação em ambientes virtuais e inteligência artificial aplicada à linguagem.
Língua Portuguesa · Capítulo 1
Leitura, compreensão e interpretaçãoOrganização e progressão das ideiasReferência e articulação textualCoesão e coerência
Itens do edital:
- 1. Leitura, compreensão e interpretação de textos: gêneros variados, incluindo textos argumentativos, normativos, científicos e jornalísticos; análise crítica e inferencial.
- 2. Estruturação do texto e dos parágrafos: organização, progressão e hierarquia das ideias.
- 3. Articulação textual: pronomes e expressões referenciais, nexos, operadores sequenciais e conectivos.
- 4. Coesão e coerência textual: mecanismos de coesão referencial, lexical e sequencial.
1.1 Pré-teste
Responda antes de ler a teoria. O gabarito está no fim do capítulo.
P1inédita
Leia o texto autoral: “O novo formulário reduziu o tempo de preenchimento, mas o atendimento continuou lento porque os pedidos ainda aguardavam distribuição entre os setores.” A inferência sustentada pelo texto é:
- A)A demora passou a decorrer do preenchimento do formulário.
- B)A mudança eliminou a espera em todas as etapas do serviço.
- C)A distribuição dos pedidos deixou de integrar o atendimento.
- D)A rapidez de uma etapa não assegurou rapidez no processo inteiro.
- E)A distribuição tornou-se mais lenta depois da mudança do formulário.
P2inédita
No parágrafo autoral “A padronização dos registros facilita o trabalho coletivo. Com campos definidos, os dados podem ser comparados. Além disso, a equipe localiza com mais rapidez as informações necessárias”, o primeiro período funciona como:
- A)Exemplo particular sem relação com os períodos seguintes.
- B)Ideia central desenvolvida pelas explicações posteriores.
- C)Conclusão que rejeita as vantagens citadas no parágrafo.
- D)Objeção que será refutada nos períodos posteriores.
- E)Pergunta implícita que permanece sem resposta no texto.
P3inédita
Em “O setor recebeu uma solicitação urgente. Ela foi encaminhada à chefia”, o pronome “Ela” retoma:
- A)A urgência do atendimento.
- B)A chefia mencionada depois.
- C)A pessoa que recebeu o pedido.
- D)O setor responsável pelo envio.
- E)A solicitação recebida pelo setor.
1.2 O que cai
- 1. Leitura, compreensão e interpretação de textos: gêneros variados, incluindo textos argumentativos, normativos, científicos e jornalísticos; análise crítica e inferencial: 1 questão da banca, 2025
- 2. Estruturação do texto e dos parágrafos: organização, progressão e hierarquia das ideias: 4 questões da banca, 2021–2025
- 3. Articulação textual: pronomes e expressões referenciais, nexos, operadores sequenciais e conectivos: 4 questões da banca, 2021–2025
- 4. Coesão e coerência textual: mecanismos de coesão referencial, lexical e sequencial: 5 questões da banca, 2025
1.3 Teoria
A interpretação depende das relações que o texto permite demonstrar. Referências, conectivos e organização das ideias delimitam essas relações em avisos, relatórios e outros gêneros.
1.3.1 Leitura, compreensão e interpretação
Compreender é recuperar o que o texto apresenta; interpretar é estabelecer relações e produzir inferências sustentadas por suas pistas.
A diferença não separa leitura mecânica e opinião livre. Uma informação explícita pode exigir reconhecimento de paráfrase, enquanto uma conclusão implícita precisa resultar das relações entre os enunciados. O limite permanece o texto: uma hipótese plausível sobre o mundo não se torna verdadeira na passagem apenas porque parece razoável.
O tema corresponde ao assunto geral. A ideia central é o que se afirma principalmente sobre esse assunto. A tese é a posição defendida quando há argumentação. Em um aviso sobre agendamento, o tema pode ser atendimento; a informação central pode ser a mudança do canal de marcação. Em um artigo que defende atendimento acessível, a tese pode ser a necessidade de remover barreiras. Nem todo texto possui tese argumentativa, embora todo texto permita identificar assunto e finalidade.
Os gêneros textuais são formas socialmente reconhecidas de comunicação: notícia, relatório, artigo de opinião, aviso e instrução de serviço, por exemplo. Sua identificação considera finalidade, interlocutores, circulação e organização. Já as sequências textuais descrevem modos de composição: narração, descrição, exposição, argumentação e injunção. Um relatório pode narrar uma diligência, descrever um objeto e apresentar uma conclusão. A presença de uma sequência não transforma automaticamente o documento inteiro em outro gênero.
| Texto | Finalidade predominante | Atenção na leitura |
|---|---|---|
| Argumentativo | Defender uma posição | Tese e justificativas |
| Normativo | Estabelecer condutas | Destinatário e condições |
| Científico | Explicar investigação | Método e limites |
| Jornalístico | Informar acontecimentos | Fontes e recortes |
No texto argumentativo, o argumento oferece uma razão para aceitar a tese. Exemplos ilustram uma afirmação; comparações aproximam situações; dados podem funcionar como evidência; referências a especialistas podem constituir argumento de autoridade. A força do argumento depende de sua pertinência e da relação com a conclusão. Citar uma autoridade não prova qualquer tese, especialmente quando a declaração trata de assunto diferente ou aparece fora do contexto.
A relação entre tese e argumento pode ser explícita ou reconstruída. Em A sinalização precisa ser revista, porque os usuários não encontram o setor, a necessidade de revisão constitui a posição defendida, e a dificuldade de localização fornece uma justificativa. A frase não afirma que a sinalização seja a única causa do problema. Uma alternativa que acrescente exclusividade extrapola o texto, mesmo repetindo palavras presentes no período.
No texto normativo, verbos e expressões delimitam obrigação, permissão e proibição. No aviso hipotético O visitante deve apresentar identificação na recepção, a obrigação recai sobre o visitante e possui uma situação definida. Trocar deve por pode modifica a força da orientação. Também importa o alcance de condições e exceções: somente mediante agendamento restringe a realização do atendimento; não descreve apenas uma preferência do setor.
No texto científico, a conclusão precisa ser lida à luz do procedimento e dos limites declarados. Os resultados sugerem associação não equivale a os resultados demonstram causalidade. Associação indica relação observada; causalidade exige fundamento para atribuir a um fator a produção do outro. Uma conclusão circunscrita a determinado grupo não autoriza generalização irrestrita. O título pode sintetizar a pesquisa, mas não substitui as ressalvas apresentadas no desenvolvimento.
No texto jornalístico, a leitura distingue acontecimento, relato da fonte e comentário do redator. Em Segundo a coordenação, o serviço será reorganizado, a afirmação é atribuída à coordenação. Essa atribuição não equivale à comprovação independente de todas as consequências da reorganização. Manchete, subtítulo, abertura e desenvolvimento distribuem informações em graus diferentes de detalhe. Uma alternativa pode errar ao transformar uma declaração atribuída em avaliação assumida por todo o veículo.
A inferência válida possui uma ponte demonstrável. De A recepção voltou a funcionar, depreende-se que ela já funcionara antes e passara por interrupção. Não se deduz, sem outras informações, a causa da interrupção. O verbo voltar desencadeia um pressuposto. Em O servidor deixou de adiar a resposta, a construção permite reconhecer adiamentos anteriores. Já intenções psicológicas específicas do servidor não podem ser inferidas apenas desse enunciado.
Pressupostos e subentendidos não são idênticos. O pressuposto se ancora em marcas linguísticas, como continuar, deixar de e certas construções restritivas. O subentendido depende mais da situação comunicativa. Dizer A sala está escura pode funcionar como pedido indireto para acender a luz, mas esse valor depende do contexto. A afirmação também pode ser uma simples descrição. Uma questão precisa oferecer pistas para que o ato indireto seja sustentado.
A modalização revela o grau de compromisso com a afirmação ou a atitude diante da conduta. Certamente reforça a adesão; talvez apresenta possibilidade; é obrigatório expressa obrigação; é desejável apresenta avaliação. Modalização epistêmica diz respeito ao conhecimento e à certeza; deôntica, à obrigação, permissão ou proibição. O contexto resolve usos ambíguos: em Ele deve estar no arquivo, deve pode indicar probabilidade, sem impor que ele permaneça naquele local.
Ironia exige contraste entre expressão literal e situação. Após sucessivos desencontros, Que organização exemplar! pode expressar crítica. Sem a situação, não há motivo suficiente para impor leitura irônica. Intertextualidade ocorre quando um texto dialoga com outro por alusão, citação ou transformação. Reconhecer esse diálogo não dispensa identificar o efeito específico: uma retomada pode homenagear, questionar, atualizar ou inverter uma perspectiva, conforme a construção apresentada.
O erro típico aparece na extensão de quantificadores e recortes. Alguns pedidos não significa todos os pedidos; pode reduzir não significa elimina; no período analisado não equivale a em qualquer época. Também há troca indevida entre sujeito e fonte, causa e consequência, informação central e detalhe. Uma alternativa correta preserva conteúdo, alcance, modalidade e relações, mesmo sem reproduzir literalmente o vocabulário do trecho.
O reconhecimento de vozes também orienta a interpretação. Uma passagem entre aspas pode reproduzir uma opinião que o autor apresenta para refutar. O conteúdo citado não deve ser atribuído automaticamente ao redator. A identificação de verbos como afirmou, negou e contestou ajuda a distinguir quem assume cada posição e qual relação o texto estabelece com ela.
Exemplo resolvido
No comunicado hipotético O atendimento presencial será mantido, embora o agendamento passe a ser digital, a digitalização elimina o encontro presencial? 1. A oração principal afirma a manutenção do atendimento presencial. 2. A concessiva apresenta mudança no modo de agendar, não no modo de atender. 3. A resposta é não: concluir pela eliminação do atendimento confunde procedimentos distintos e contraria a informação expressa.
Esquema
Construção de uma inferência
1Identificar a informação expressa
Ponto de partida
2Relacionar as pistas
Ponte demonstrável
3Delimitar a conclusão
Sem acrescentar fatos
1.3.2 Organização e progressão das ideias
Um texto organiza informações em torno de um propósito. O parágrafo reúne uma unidade de desenvolvimento, mas não possui estrutura obrigatoriamente fixa.
Pode começar com a ideia principal, apresentar primeiro um caso ou concluir com uma síntese. O tópico frasal é a formulação que orienta o conteúdo do parágrafo; ele pode aparecer expresso ou ser reconstruído a partir das informações apresentadas.
Progressão temática combina continuidade e novidade. A repetição de uma referência mantém o assunto identificável; a informação nova faz o raciocínio avançar. Em um relatório, o primeiro parágrafo pode apresentar o problema de localização dos arquivos; o segundo, explicar a organização atual; o terceiro, propor uma alteração. Cada unidade acrescenta uma função ao desenvolvimento, sem perder a ligação com o problema inicial.
| Organização | Função | Indício |
|---|---|---|
| Apresentação | Delimitar o problema | Contextualização |
| Desenvolvimento | Explicar ou sustentar | Razões e exemplos |
| Conclusão | Sintetizar ou encaminhar | Retomada com avanço |
A hierarquia das ideias distingue afirmação principal e elementos subordinados. Um exemplo ilustra uma ideia, mas não equivale necessariamente à tese. Uma ressalva limita o alcance de uma afirmação. Uma explicação esclarece um conceito. Na leitura de um documento de atendimento, a descrição de um episódio pode servir apenas para justificar uma orientação geral; resumir o texto exclusivamente pelo episódio reduz sua abrangência.
A relação entre parágrafos admite continuidade, contraste, exemplificação, especificação e conclusão. Expressões como por exemplo ou em síntese ajudam, mas a função depende do conteúdo. Um parágrafo iniciado por além disso acrescenta informação à linha argumentativa anterior; se o conteúdo contrariar essa linha, existe inadequação entre o marcador e a relação pretendida.
Reordenar parágrafos exige preservar dependências. Essa medida precisa de uma medida identificável, e uma conclusão depende das razões que a sustentam. A ordem cronológica organiza acontecimentos; a ordem lógica organiza relações de fundamentação. Elas podem coincidir, mas não são equivalentes. Um relatório pode começar pela conclusão e depois reconstruir a sequência dos fatos.
Um resumo adequado conserva a hierarquia, elimina detalhes dispensáveis e mantém as relações essenciais. A supressão de um exemplo costuma preservar a tese; a retirada de uma restrição pode alterá-la. No trecho A mudança é útil, desde que haja orientação, eliminar a condição transforma uma avaliação limitada em aprovação irrestrita.
1.3.3 Referência e articulação textual
A articulação textual estabelece relações entre palavras, orações, períodos e parágrafos.
Ela permite identificar de quem se fala, o que se retoma e qual vínculo se constrói entre informações. Na leitura de documentos, o problema pode aparecer em um pronome, em um conectivo ou em uma expressão que resume um trecho inteiro. Não basta reconhecer a classe gramatical: o valor precisa ser demonstrado no contexto.
Referência anafórica aponta para informação apresentada antes. Em A equipe recebeu o relatório e o encaminhou, o pronome o retoma relatório. Referência catafórica antecipa informação posterior. Em A orientação era esta: manter o acesso livre, esta anuncia a orientação que será especificada. Dêixis depende da situação de enunciação: aqui, amanhã e eu exigem identificar lugar, momento e participante da comunicação.
Um mesmo vocábulo pode funcionar diferentemente conforme o uso. Em O arquivo fica aqui, o advérbio pode apontar para o local de quem fala. Em um texto que reproduz a fala de um servidor, o centro de referência passa a ser aquela fala. Trocar a data ou o locutor sem ajustar amanhã ou eu pode alterar o referente. O contexto determina a ancoragem da expressão, não uma classificação automática baseada na palavra isolada.
| Expressão | Relação no contexto | Exemplo |
|---|---|---|
| Isso | Retomada de uma situação | Houve atraso. Isso preocupou a equipe. |
| O qual | Retomada nominal | O documento, o qual foi recebido... |
| Portanto | Conclusão | O prazo terminou; portanto, a fase acabou. |
| Embora | Concessão | Embora houvesse fila, o atendimento continuou. |
Pronomes pessoais oblíquos recuperam participantes segundo a função sintática. Em A chefia recebeu o agente e lhe entregou a autorização, lhe representa o destinatário da entrega. Seu antecedente depende do contexto, pois a forma não informa gênero. Em A chefia recebeu o agente e o orientou, o representa o termo orientado. A troca entre essas formas pode afetar função e regência, além da ligação referencial.
Pronomes relativos retomam um antecedente e exercem função na oração que introduzem. Em O formulário que chegou está incompleto, que retoma formulário e funciona como sujeito de chegou. Em O formulário que a equipe recebeu está incompleto, o mesmo relativo é objeto de recebeu. Identificar o antecedente não resolve sozinho a função sintática. A oração interna precisa ser reconstruída para reconhecer o papel do termo retomado.
O relativo cujo estabelece relação de posse e concorda com o elemento possuído: o processo cujas páginas foram numeradas. A forma varia com páginas, não com processo, e não recebe artigo imediatamente depois. Onde retoma lugar e equivale, nesse uso, a em que: a sala onde ocorreu o atendimento. Uma fase ou uma decisão não se torna lugar físico apenas porque o autor pretende retomar uma palavra anterior.
A ambiguidade referencial surge quando mais de um antecedente permanece possível. Em O agente informou ao supervisor que seu relatório estava pronto, seu pode gerar dúvida sobre a autoria. A proximidade do substantivo não garante resolução. Reescrever como o relatório do agente elimina a duplicidade, se esse for o sentido pretendido. Já um pronome que retoma todo um fato anterior não precisa corresponder a um único substantivo.
Expressões encapsuladoras resumem segmentos. Em Os arquivos foram separados, identificados e acondicionados. Esse procedimento facilitou a busca, a expressão retoma o conjunto das ações. O substantivo escolhido também pode avaliar o conteúdo: esse avanço sugere apreciação positiva; esse impasse apresenta dificuldade. A retomada não é sempre neutra. A banca pode perguntar tanto pelo segmento recuperado quanto pela orientação argumentativa da escolha lexical.
Conectivos aditivos associam informações compatíveis na construção apresentada: e, também, além disso. Adversativos marcam contraste ou quebra de expectativa: mas, porém, contudo. Concessivos apresentam um obstáculo que não impede o fato principal: embora, ainda que, mesmo que. O contraste de mas e a concessão de embora podem aproximar conteúdos, mas sua substituição exige reorganização sintática e pode alterar o destaque argumentativo.
Causa responde pelo motivo de um fato; consequência apresenta o resultado. Em O setor fechou porque faltou energia, a falta de energia explica o fechamento. Em Faltou energia, de modo que o setor fechou, o fechamento é apresentado como consequência. A relação pode permanecer próxima, mas a organização das orações se altera. Finalidade apresenta objetivo, não resultado garantido: O aviso foi afixado para orientar os visitantes não assegura que todos o tenham compreendido.
Condição delimita a realização de uma proposição: Se houver autorização, o acesso será liberado. Concessão admite uma circunstância contrária à expectativa: Embora houvesse autorização, o acesso não foi liberado. Trocar se por embora modifica a relação, e não apenas o estilo. Em construções hipotéticas, o modo e o tempo verbal também participam do sentido. Se houver projeta uma possibilidade; se houvesse pode integrar hipótese mais distanciada, conforme o contexto.
Operadores conclusivos apresentam uma conclusão, como portanto e logo. Explicativos justificam uma ordem ou uma afirmação: Aguarde, pois o sistema está iniciando. O valor de pois depende da posição e da construção; em O sistema iniciou; podemos, pois, atender, há conclusão. Como também admite valores diversos: causa em Como o sistema falhou, o registro foi adiado; comparação em O registro ficou como o anterior; conformidade em Agimos como previa a orientação.
Operadores sequenciais organizam etapas e argumentos. Primeiramente e em seguida podem marcar ordem de exposição ou sucessão temporal. Por fim encerra uma série, mas não significa necessariamente conclusão lógica. Inclusive acrescenta elemento que pode reforçar uma escala; apenas restringe; até pode indicar limite espacial, temporal ou inclusão inesperada. A interpretação exige identificar o elemento alcançado pelo operador e o contraste que ele produz no trecho.
O paralelismo auxilia o encadeamento de elementos coordenados. Em O setor orienta os usuários e registra os pedidos, os dois verbos apresentam ações do mesmo sujeito. Já uma enumeração que misture ações, pessoas e justificativas sem relação clara pode prejudicar a organização. A articulação adequada exige correspondência entre a construção escolhida e o vínculo semântico pretendido, sem reduzir a análise à presença de conjunções.
Exemplo resolvido
No registro hipotético O formulário estava incompleto; por isso, o protocolo pediu a complementação, qual relação por isso estabelece? 1. A expressão retoma a incompletude do formulário. 2. O pedido aparece como consequência dessa condição anterior. 3. A relação é de consequência com retomada anafórica; substituir a expressão por apesar disso introduziria uma quebra de expectativa que o registro não apresenta.
Esquema
Direções da referência
Referência textual
Anáfora
Informação anterior
Catáfora
Informação posterior
Dêixis
Situação de enunciação
1.3.4 Coesão e coerência
Coesão é a ligação linguística entre partes do texto; coerência é a construção de um sentido interpretável e compatível com o contexto.
Um texto pode apresentar pronomes e conectivos bem formados e, ainda assim, combinar informações contraditórias. Também pode construir sentido com poucas marcas explícitas, desde que as relações possam ser recuperadas. Coesão contribui para a coerência, mas não a garante isoladamente.
A coesão referencial mantém ou introduz referentes por pronomes, expressões nominais e elipse. Em A equipe chegou e iniciou o atendimento, o sujeito de iniciou é recuperado sem repetição. Essa omissão não é falha, porque o referente permanece identificável. Em contrapartida, uma elipse que deixe dúvida entre agentes pode prejudicar a clareza do registro.
| Mecanismo | Funcionamento | Cuidado |
|---|---|---|
| Referencial | Retoma participantes | Antecedente identificável |
| Lexical | Relaciona palavras | Equivalência contextual |
| Sequencial | Encadeia informações | Relação compatível |
A coesão lexical emprega repetição, sinônimos contextuais, hiperônimos e relações de sentido. Documento pode retomar ofício por ser uma designação mais abrangente. A relação inversa exige que o contexto autorize especificação: nem todo documento é ofício. Sinônimos não são intercambiáveis em qualquer situação. Em linguagem técnica, substituir uma denominação precisa por outra apenas aproximada pode comprometer o conteúdo, embora evite repetição.
A repetição não constitui defeito automático. Pode manter precisão, reforçar uma ideia ou impedir ambiguidade. No relatório hipotético O recipiente foi lacrado. O recipiente foi identificado, repetir o substantivo preserva o referente. A escolha entre repetição e pronome depende da clareza, e não de uma regra segundo a qual toda retomada nominal seria inadequada.
A coesão sequencial organiza tempo, causa, oposição e conclusão, entre outras relações. Em O acesso foi autorizado; entretanto, a entrada permaneceu bloqueada, o conectivo marca contraste. Substituí-lo por portanto apresentaria o bloqueio como conclusão da autorização, relação que precisaria de outro fundamento contextual. A classificação do conectivo deve corresponder à relação construída.
A coerência exige atenção a não contradição, relevância e continuidade temática. O atendimento foi exclusivamente remoto e ocorreu presencialmente na mesma situação gera incompatibilidade se nenhuma distinção for oferecida. Já duas afirmações aparentemente opostas podem ser compatíveis quando tratam de turnos diferentes. O contexto pode resolver a tensão; não se deve declarar contradição apenas pela presença de palavras de sentidos opostos.
Conhecimento compartilhado ajuda a preencher ligações, mas não permite inventar fatos. Em A fila cresceu. A equipe abriu outro guichê, a relação prática é recuperável, embora não haja conectivo explícito. A passagem não informa quantas pessoas chegaram. A leitura coerente reconstrói vínculos necessários e preserva os limites do que foi efetivamente dito.
Exercício comentado
Como a banca cobrouoficial · SESAP/RN 2025
Quando se lê um texto e se verifica que as palavras, as frases e os parágrafos estão entrelaçados, dando continuidade uns aos outros, e que existem atributos que favorecem a conexão, a ligação, a harmonia entre os elementos dele, o texto está de acordo com o atributo da redação oficial denominado(a) de
- A)Impessoalidade.
- B)Clareza e Precisão.
- C)Objetividade.
- D)Coesão e Coerência.
- E)Formalidade.
Resposta: D
Conceito: Coesão conecta os elementos linguísticos, e coerência organiza sua compatibilidade e continuidade de sentido.
Raciocínio: 1. O enunciado destaca o entrelaçamento de palavras, frases e parágrafos, característica da coesão. 2. Também menciona continuidade e harmonia, relacionadas à coerência do conjunto. 3. A alternativa D reúne os dois atributos descritos.
Pegadinha: Um texto pode seguir padrões formais e, ainda assim, apresentar conexões inadequadas ou contradições.
Base: Manual de Redação da Presidência da República, 3ª edição: atributos da redação oficial, coesão e coerência.
Pegadinha da banca
Possibilidade não é certeza
Trocar pode ocorrer por sempre ocorre altera modalidade e alcance, mesmo com o restante da frase preservado.
Pegadinha da banca
Referente além de uma palavra
Uma expressão como essa situação pode retomar um conjunto de acontecimentos, não apenas o substantivo mais próximo.
Atenção
Relação e forma caminham juntas
Uma substituição de conectivo precisa preservar sentido e construção sintática. Proximidade de significado não autoriza troca mecânica.
1.4 Exemplo resolvido
No aviso hipotético O portal mudou, mas o atendimento presencial permanece, a conjunção mas introduz: A) causa da mudança; B) finalidade do portal; C) condição de atendimento; D) contraste com uma expectativa; E) ordem temporal obrigatória.
- A primeira oração anuncia uma mudança no portal.
- A segunda preserva uma modalidade de atendimento, contrariando a expectativa de que tudo tenha mudado.
- O conectivo é adversativo e introduz contraste, sem estabelecer causa ou finalidade.
Resposta: Alternativa D. Há contraste com uma expectativa.
1.5 Fixação
Questões inéditas, no estilo da banca.
F1inédita
O aviso autoral “É obrigatório manter a porta de emergência desobstruída durante o funcionamento do prédio” tem como finalidade predominante:
- A)Estabelecer uma regra de conduta no espaço descrito.
- B)Narrar uma ocorrência passada no interior do prédio.
- C)Defender uma hipótese sobre a origem das emergências.
- D)Descrever a aparência de uma porta já instalada.
- E)Divulgar o resultado de um experimento com portas.
F2inédita
Em “Embora o arquivo estivesse organizado, a busca demorou”, o conectivo “Embora” introduz uma relação de:
- A)Causa determinante da demora.
- B)Condição necessária para a busca.
- C)Concessão diante do resultado informado.
- D)Conclusão extraída da demora.
- E)Finalidade pretendida com a organização.
F3inédita
No trecho autoral “Um scanner foi instalado na recepção. O equipamento será usado na digitalização dos pedidos”, a expressão “O equipamento” contribui para a coesão por:
- A)Introduzir um aparelho diferente do scanner.
- B)Retomar o scanner por um termo de sentido mais amplo.
- C)Apresentar o nome próprio do scanner instalado.
- D)Repetir exatamente a mesma palavra do primeiro período.
- E)Antecipar um referente que ainda será apresentado.
F4inédita
Os períodos autorais a seguir formam um relato de organização de documentos. I. Por fim, os documentos ordenados foram colocados nas caixas identificadas. II. Em seguida, cada grupo foi organizado por data. III. Inicialmente, os documentos foram separados por assunto. A sequência que respeita as marcas de progressão do relato é:
- A)I — II — III.
- B)II — I — III.
- C)III — I — II.
- D)III — II — I.
- E)II — III — I.
F5inédita
Considere o texto autoral: “Todos os pedidos recebidos hoje foram analisados hoje. Um dos pedidos recebidos hoje não foi analisado hoje.” Consideradas as expressões com o mesmo sentido nos dois períodos, o principal problema é:
- A)Falta de antecedente para um pronome pessoal.
- B)Uso de um conectivo de finalidade no lugar de causa.
- C)Ausência de uma data exata para situar o relato.
- D)Emprego de um termo técnico sem definição prévia.
- E)Contradição entre a totalidade afirmada e a exceção apresentada.
1.6 Questões da banca
Questões oficiais de provas anteriores, com a fonte.
Q1oficial · IFPA 2025
AS MOSCAS TAMBÉM AMAM A mosca estava profundamente depressiva. E como não estar? Seu corpo expelia tristeza e angústia. Mal nascera, e a brevidade dos seus instantes já anunciavam: sua morte a esperava em apenas alguns dias. Em 15, 20 ou no máximo 30 dias jazeria esquecida, servindo apenas de alimento para outros insetos, se é que teria tal utilidade! Pobre sina! Voando entre decomposições, alimentando-se de podridões, a escolha perfeita para todos os males e imperfeições. Uma constante atração por tudo o que é desprezado pela espécie dominante na Terra. Ó, pobre mosca! Seu coração palpitava calor, um estômago que regurgitava boas intenções, um cérebro que planejava uma vida cheia de objetivos. Fazer o bem. Salvar vidas. Gravar seu nome na história. Será que esperava demais de si mesma? O que fazer, afinal? Concluiu ser uma mosca diferente de todas aquelas que a precederam. E como tal, iria em busca do seu destino alternativo. Começou a voar aleatoriamente em busca de um sentido na vida. Sentiu um atrativo odor de carniça ao sobrevoar um terreno baldio, mas resistiu à tentação. Precisava lutar contra suas inclinações, contra cada traço instintivo. Continuou vagando em direção ao tudo e nada, e chegou a uma casa de humanos. Entrou calmamente pela janela, e começou a inspecionar o local. Voou por toda a casa para descobrir que, no total, havia quatro pessoas ali. Cada qual ocupava um cômodo diferente. Ao inspecionar cada um, a mosca compadeceu-se ao ver seus rostos. Embora parecessem distraídos com aqueles pequenos aparelhos em mãos, emitindo uma estranha luz fosca, na verdade, havia um vazio em cada semblante. A mosca percebeu muita dor em cada traço daquelas faces. E concluiu que, mesmo em sua vida curta e sem objetivo, jamais sentira tamanha solidão como aqueles humanos pareciam padecer. Seu pequenino coração condoeu-se com tanto sofrimento contido. Todos eles eram seres mortos, apesar de ainda respirarem. Em busca de fazer a diferença, a mosca resolveu fazer-lhes companhia. Por que sobrevoar materiais em decomposição se poderia consolar aqueles que ainda respiravam? Quem sabe sua presença pudesse trazer um pouco de calor e ânimo para aquelas pessoas. Ela não poderia abanar o rabo como um cachorro, nem se esfregaria nos humanos como um gato. Mas encontraria uma forma de expressar seu carinho. Cheia de amor e boas intenções, a mosca tentou uma tímida aproximação. Para que fosse vista, aproximou-se dos olhos do humano. Não soube o porquê, mas ele afastou-a com um gesto brusco. Talvez não estivesse acostumado com expressões de carinho. Talvez estivesse simplesmente assustado. Talvez fosse melhor uma aproximação mais gentil. Na nova tentativa, pousou nos lábios do humano. Foi quase um beijo, uma expressão de “estou aqui se precisar”. Aquele foi seu último ato. Em um movimento rápido e certeiro, o humano se afastou e esmagou a mosca com as duas palmas. Aquela mosca imaginava ser a única em busca de um objetivo na vida. Enganou-se. Morreu sem ao menos saber que outros milhares de sua espécie tiveram (e ainda teriam) o mesmo fim, ao tentar consolar aqueles seres que estavam mortos, apesar de ainda respirarem. MARTINZ, Juliano. “Crônicas Narrativas”; Literatura Corrosiva. Adaptado.
Atente-se à significação e à função contextual do advérbio talvez, de modo a assinalar a alternativa correta em se tratando da intenção comunicativa modalizadora do cronista ao utilizá-lo no trecho: “Talvez fosse melhor uma aproximação mais gentil.”
- A)Epistêmica asseverativa.
- B)Epistêmica quase-asseverativa.
- C)Deôntica por volição.
- D)Deôntica por obrigação.
- E)Epistêmica delimitadora.
Q2oficial · Pref. Campina Grande/PB 2021
Paraíba registra queda no volume de vendas do comércio varejista, diz IBGE O volume de vendas do comércio varejista paraibano apresentou a 3a menor variação do país no acumulado em 12 meses (–0,7%), segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC) referente a setembro, divulgada nesta quinta-feira (11) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O índice estadual contrasta com a média nacional, que aponta para um saldo positivo (3,9%). No mesmo período, a receita nominal do setor da Paraíba, embora tenha tido alta de 9,7%, registrou também a 3a menor variação do Brasil, inferior à média do país (15,1%). Em ambos os casos, os indicadores paraibanos foram os menores do Nordeste. Já frente aos resultados de agosto deste ano, o volume de vendas paraibano teve retração de 1,4% em setembro, próxima à observada na média do Brasil (– 1,3%). Por outro lado, foi verificado um crescimento de 0,6% na receita do estado, enquanto no cenário nacional houve redução de 0,2%. Este ano, até o mês pesquisado, o volume brasileiro de vendas do comércio varejista apresentou expansão de 3,8%, no comparativo com o mesmo período de 2020, ao passo que o paraibano teve queda de 1,1%. Contudo, nos dois recortes territoriais, o saldo da receita foi positivo, de 16,3% e 10,4%, respectivamente, embora o indicador da Paraíba tenha sido o 3o menor do Brasil. No comércio varejista ampliado paraibano – que inclui as atividades de veículos, motos, partes e peças e de material de construção –, foram observadas variações positivas no acumulado de 12 meses, tanto no volume de vendas (6,1%), como na receita (16,9%). Em ambos os casos, porém, os resultados do estado foram inferiores às médias nacionais, de 7% e 19%, respectivamente. Na comparação dos resultados de setembro com os de agosto, houve redução de 0,2% no volume estadual e de 1,1% no nacional. Entretanto, as receitas dos setores aumentaram 0,8% e 0,3%, respectivamente. (Jornal da Paraíba, 11/11/2021. Disponível em: https://jornaldaparaiba.com.br/economia/2021/11/11/paraiba-registra- queda-no-volume-de-vendas-do-comercio-varejista-diz-ibge)
Em relação à leitura do texto e as inferências que podem ser feitas, analise as afirmativas a seguir: I. Embora tenha havido uma queda no volume de vendas na Paraíba, no período analisado, o Estado arrecadou mais impostos. II. Comparando-se os resultados de setembro, em relação ao mês anterior, o desempenho paraibano ficou acima da média nacional, o que fez o estado ter um saldo positivo na receita. III. Somente o setor varejista ampliado paraibano teve resultado positivo durante todo o ano, destacando-se como o único comércio que obteve lucros nos últimos doze meses. Assinale
- A)se apenas a afirmativa I estiver correta.
- B)se apenas a afirmativa II estiver correta.
- C)se apenas a afirmativa III estiver correta.
- D)se todas as afirmativas estiverem corretas.
Q3oficial · Pref. Patos/PB 2025
QUANDO SE PERDOA AOS PAIS Outro dia saí com uma amiga psicóloga, e nossos encontros sempre rendem bons papos. Um chope aqui, um petisco ali, e a conversa vai rendendo. Tal hora lhe perguntei qual assunto era mais tratado no seu divã. — Em terapia, um dos momentos mais marcantes é quando o paciente percebe que precisa perdoar aos pais. A resposta me desarmou. Ficou martelando na minha cabeça. Como assim, perdoar aos pais!? Que mal os heróis infalíveis de nossa infância cometeriam para necessitassem de perdão? Bom, eu nunca fiz terapia, também nunca tinha parado para pensar a respeito do papel de meus pais na formação do que sou hoje, mas esse assunto me saiu como uma bela epifania. Sou filho de pais jovens. Quando nasci, minha mãe tinha 17 anos, e meu pai, 20. E, antes que pensem bobagem, eu não vim ao mundo porque eles foram apressados e quebraram os trâmites da época. Pelo contrário, nasci conforme mandava o figurino: de pais casados e gerado um ano depois do matrimônio. Hoje, vejo uma certa graça em ter sido o primeiro filho de tão jovem casal, pois eu não percebia, mas meus pais e eu crescíamos juntos. Meu pai lia revista em quadrinhos comigo e gargalhava como se estivesse lendo as maiores piadas do mundo. Outro dia, enquanto aguardava ser atendido em um consultório médico, resolvi folhear uma que estava no meio de cestos de revistas e não vi graça. Será que estou velho e enjoado? Já minha mãe assistia ao programa infantil da época, o Balão Mágico, e curtia ouvir, na rádio ou no nosso toca-discos, as músicas de grupos, como Trem da Alegria ou da própria Xuxa, arriscando até uma coreografia. Do lado adulto deles, lembro que meu pai sempre foi muito organizado e exigia isso de mim e de meus irmãos. Teve formação militar, então nossas camas e quartos deviam estar sempre muito bem arrumados. Minha mãe orientava a mim e aos meus irmãos de como executar as tarefas simples da casa, por exemplo, lavar pratos, cozinhar, fazer compras... Tanto que, quando me mudei para Fortaleza, não tive dificuldade em me virar sozinho e até estranhei ver alguns amigos, já bem crescidinhos por sinal, tão dependentes de seus pais para desempenhar tarefas domésticas que, para mim, eram básicas de qualquer adulto funcional. Meus pais eram a personificação de pais corujas e atribuo a eles eu ter uma boa autoestima. Estavam sempre aplaudindo a todos os meus talentos. No lugar de brigar por causa de alguma travessura, procuravam ver graça naquilo que eu fazia, já que eu tinha uma imaginação muito fértil, e curtiam cada descoberta de minhas variadas aptidões. Me lembro de uma situação bem peculiar. Sempre gostei das artes e desenhava e pintava com um certo talento. Meus pais se admiravam com minha capacidade de rabiscar, a olho nu, qualquer imagem em qualquer superfície. Tais aptidões me inspiravam a fazer “obras” paradoxais numa casa. Pois bem, conseguem imaginar as paredes de um banheiro pintadas com as personagens da Turma da Mônica? Assim era o lá de casa. Um belo dia, acordei inspirado e, como um pequeno Michelangelo, resolvi “dar vida” às paredes do banheiro sem pedir permissão a ninguém. Munido de lápis de cera e canetinhas, dei início à minha inspiração. Meu pai, ao ver a “obra”, fez uma exclamação pela qual julguei que eu ia levar uma surra daquelas. Para minha surpresa, ele me pergunta o que eu tinha contra o Chico Bento, porque era o único que não estava no rol do “afresco”. Acredito que essa reação ocorreu por ainda existir nele o fogo da juventude que consegue ver graça nas situações mais toscas. Essa observação dele hoje me soa como o melhor elogio que eu recebi em toda minha vida. Os leitores devem estar pensando que quero passar a imagem de que tive pais diferentes dos pacientes de minha amiga psicóloga. Pois digo a vocês que também tive momentos que quis culpá-los por alguma situação com qual não consegui lidar ou por um de meus comportamentos já enraizados em minha personalidade. Sou muito independente e não gosto de pedir ajuda a ninguém. E, analisando bem, esse comportamento vem devido à cobrança de eu ter que ser sempre um bom exemplo para meus irmãos, pois sou o filho mais velho. Isso fez com que eu vivesse me cobrando uma espécie de perfeição, não me permitindo falhar em qualquer situação da vida. É quase certo que alguns adultos da minha geração concordariam que essa cobrança foi boa para mim, porque me tornou um homem forte e sem mi mi mi, diferente da geração atual que é tão criticada por não saber, muitas vezes, lidar com adversidades e frustações. Porém, confesso que essa suposta “força” me retrai a vontade de reconhecer que, às vezes, errar faz parte do aprender e que, como todo mundo, preciso de colo e cuidados. Crescer é um processo cruel. Um dia, a gente acorda e percebe que os pais não têm todas as respostas. Que erraram tentando acertar, que o colo ficou mais raro, que a presença deles nem sempre foi do jeito que precisávamos. A maturidade tem me ajudado muito a me portar diferente em relação a vários assuntos. Ao vê-los envelhecendo, ela me deu a capacidade de colocá-los em certos lugares e de enxergá-los como seres de carne e osso, falhos como qualquer ser humano. Por isso me concentro nos acertos, lhes perdoando os vacilos e me apegando às bondades que eles fizeram e me proporcionaram. Sei que muitos que estão lendo essa crônica não têm ou tiveram relações tão agradáveis com seus genitores, e, por favor, não pensem que estou aqui querendo invalidar as experiências de ninguém em relação a sua criação, pois sei que há pessoas que deveriam ter sido proibidas de trazer filhos ao mundo e que muitas delas foram responsáveis por prejudicá-los emocionalmente. Todavia ter o coração cheio de mágoas, em algum momento, dificulta nossa existência e pesa como uma cruz que se arrasta até o calvário ao qual nunca se chega. Além disso, essa lamentação sempre nos levará a entoar uma cantilena para justificar nossas falhas e medos. Seguir em frente é uma escolha, e acreditem, é a melhor. Perdoar aos pais é entender que, mesmo sem saber, eles escreveram em nós as primeiras linhas da nossa história. E, ao reler essas linhas, a gente aprende a enxergar não só o erro mas também o esforço de amar com as ferramentas que tinham. Ao terminar essa crônica, me veio, sorrateiramente, um trecho da música do grande Belchior “Ainda somos e vivemos como nossos pais”. Leva-se um tempo, mas chega o dia que esses versos farão um grande sentido em nossa vida. ALAN, Victor. Qual o nome de sua saudade? 1a edição. Belo Horizonte. Editora Epopeia, 2025.
Analise o emprego dos advérbios realçados no fragmento que segue, de modo a marcar o item correto. "Outro dia saí com uma amiga psicóloga, e nossos encontros sempre rendem bons papos. Um chope aqui1, um petisco ali2, e a conversa vai rendendo. Tal hora lhe perguntei qual assunto era mais tratado no seu divã."
- A)1 e 2 são dêiticos.
- B)1 e 2 são anafóricos.
- C)1 e 2 são catafóricos.
- D)1 é dêitico; 2, catafórico.
- E)1 é anafórico; 2, catafórico.
Q4oficial · SESAP/RN 2025
Lobo Bobo João Gilberto Mas chapeuzinho percebeu Que o lobo mau se derreteu Pra ver você que lobo Também faz papel de bobo Só posso lhe dizer Chapeuzinho agora traz O lobo na coleira Que não janta nunca mais Lobo bobo Era uma vez um lobo mau Que resolveu jantar alguém Estava sem vintém Mas arriscou E logo se estrepou Um chapeuzinho de maiô Ouviu buzina e não parou Mas lobo mau insiste E faz cara de triste Mas chapeuzinho ouviu Os conselhos da vovó Dizer que não pra lobo Que com lobo não sai só Lobo canta, pede Promete tudo, até amor E diz que fraco de lobo É ver um chapeuzinho de maiô
A canção LOBO BOBO dialoga com o conto CHAPEUZINHO VERMELHO, na qual a personagem central, Chapeuzinho Vermelho, desobedece aos conselhos de sua avó, optando por seguir um caminho perigoso que a coloca frente a frente com o perigo: o Lobo Mau. Esse diálogo entre os dois textos promove uma
- A)referência ao texto já conhecido, anunciando a atualidade do texto a que se alude.
- B)subversão do sentido do texto já conhecido, suscitando crítica.
- C)ressignificação de texto já conhecido, ambientando-o em novo contexto.
- D)reescrita do assunto do texto já conhecido, produzindo uma nova linguagem.
- E)reprodução da estrutura do texto já conhecido, gerando uma alusão estrutural.
1.7 Gabarito comentado
P1inédita · pré-testeResposta: D
- A: A alternativa A atribui a demora à etapa que se tornou mais rápida.
- B: A alternativa B contradiz a permanência do atendimento lento.
- C: A alternativa C elimina uma etapa expressamente mencionada.
- E: A alternativa E inventa comparação temporal sobre a velocidade da distribuição.
P2inédita · pré-testeResposta: B
- A: A alternativa A confunde a afirmação geral com exemplo e ignora a ligação temática.
- C: A alternativa C atribui rejeição a períodos que sustentam a ideia inicial.
- D: A alternativa D supõe oposição onde há desenvolvimento explicativo.
- E: A alternativa E transforma uma afirmação declarativa em pergunta sem apoio textual.
P3inédita · pré-testeResposta: E
- A: A alternativa A transforma uma característica da solicitação em referente autônomo.
- B: A alternativa B aponta um termo posterior que recebe a solicitação.
- C: A alternativa C introduz pessoa que o texto não identifica.
- D: A alternativa D propõe um antecedente masculino, incompatível com o pronome.
F1inéditaResposta: A
- B: A alternativa B pressupõe uma sequência de fatos passados ausente no aviso.
- C: A alternativa C atribui uma discussão causal que não aparece.
- D: A alternativa D confunde a condição exigida com uma descrição de aparência.
- E: A alternativa E inventa pesquisa e resultado experimental.
F2inéditaResposta: C
- A: A alternativa A trata a organização como causa declarada da demora.
- B: A alternativa B atribui condição a um fato apresentado como efetivo.
- D: A alternativa D confunde ressalva com conclusão.
- E: A alternativa E supõe objetivo da organização que não foi enunciado.
F3inéditaResposta: B
- A: A alternativa A rompe a identidade referencial estabelecida pelo contexto.
- C: A alternativa C trata um nome comum como nome próprio.
- D: A alternativa D supõe repetição literal, mas as palavras são diferentes.
- E: A alternativa E descreve antecipação, enquanto o referente já apareceu.
F4inéditaResposta: D
- A: A alternativa A inicia o relato com seu encerramento.
- B: A alternativa B coloca a ação inicial depois da final.
- C: A alternativa C encerra o procedimento antes da etapa intermediária.
- E: A alternativa E faz a continuidade preceder o início explicitamente marcado.
F5inéditaResposta: E
- A: A alternativa A atribui o problema a um pronome pessoal que não aparece.
- B: A alternativa B menciona um conectivo ausente no texto.
- C: A alternativa C trata como essencial uma data que não resolveria a contradição.
- D: A alternativa D supõe obscuridade técnica em palavras correntes.
Q1oficialResposta: B
- A: A alternativa A pressupõe uma afirmação segura, incompatível com a dúvida expressa por talvez.
- C: A alternativa C atribui valor de vontade ou desejo; o trecho avalia uma possibilidade.
- D: A alternativa D supõe obrigação, mas não há ordem nem necessidade imposta.
- E: A alternativa E pressupõe delimitação do domínio em que uma afirmação vale, como sob certo aspecto; talvez indica incerteza.
Fonte: IFPA 2025 — prova em pciconcursos.com.br
Q2oficialResposta: A
- B: A alternativa B aceita a afirmativa II, mas a retração paraibana supera a nacional em intensidade; o texto tampouco estabelece a relação causal proposta.
- C: A alternativa C aceita a afirmativa III, que confunde receita e volume com lucro e generaliza resultados de períodos específicos.
- D: A alternativa D inclui as afirmativas II e III, ambas incompatíveis com os recortes e as comparações apresentados.
Fonte: Pref. Campina Grande/PB 2021 — prova em pciconcursos.com.br
Q3oficialResposta: A
- B: A alternativa B pressupõe retomada de referentes espaciais já expressos; essa relação não aparece no fragmento.
- C: A alternativa C pressupõe antecipação de referentes textuais posteriores, ausente nos dois usos.
- D: A alternativa D identifica adequadamente aqui como dêitico, mas atribui a ali uma antecipação inexistente.
- E: A alternativa E atribui retomada a aqui e antecipação a ali, sem apoio na organização do trecho.
Fonte: Pref. Patos/PB 2025 — prova em pciconcursos.com.br
Q4oficialResposta: C
- A: A alternativa A reduz o diálogo a uma referência que atualiza o texto anterior, sem destacar a transformação contextual dos sentidos.
- B: A alternativa B faz da crítica a finalidade determinante; o efeito diretamente demonstrado é a ressignificação em outro contexto.
- D: A alternativa D apresenta apenas reescrita do assunto e nova linguagem, descrição genérica que não capta o deslocamento de contexto.
- E: A alternativa E afirma reprodução estrutural, mas a canção altera as relações entre as personagens e o desenvolvimento da situação.
Fonte: SESAP/RN 2025 — prova em pciconcursos.com.br
1.8 Revisão relâmpago e mapa de revisão
- Inferência válida exige apoio em pistas textuais.
- Tema, ideia central e tese não são sinônimos.
- O gênero considera finalidade e situação de circulação.
- Parágrafos podem seguir ordem lógica ou cronológica.
- Anáfora retoma; catáfora antecipa.
- Dêixis depende da situação de enunciação.
- Conectivo causal apresenta motivo; final apresenta objetivo.
- Coesão não garante, sozinha, coerência.
Mapa de revisão
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